Guia de Episódios Prólogo Primeiro Ato Segundo Ato Terceiro Ato Quarto Ato

PRIMEIRO ATO

 

FADE IN:

 

CENA EXT. FLORESTA – MANHÃ

 

UM JOVEM GAROTO de não mais de dez anos está parado na floresta. Ele tem um arco erguido em suas mãos e está para soltar outra flecha cegamente à frente.

 

Quando ele solta o fio, uma mão agarra firme em seu ombro, e outra mão apanha primorosamente a flecha assim que é atirada do arco.

 

Engolindo seco, o garoto olha para cima, para gélidos olhos azuis.

 

XENA

Sua mãe nunca te ensinou

a não brincar com armas?

 

 

Um farfalhar nas moitas produz a aparição de uma alta e atraente mulher. Vestida imaculadamente, seu cabelo loiro é perfeitamente como uma touca, e ela usa um cordão de pérolas em volta do pescoço. 

 

JUNOS

Castor! Onde... oh, aí está você! Seu

pai e eu estávamos preocupadíssimos

com você!  Oh, e veja! Você encontrou

algumas amigas. Não é encantador?

(pausa)

Weardus! Weardus, venha ver.

Eu encontrei Castor e ele fez

algumas novas amizades!

 

Um homem alto e feio se aproxima do grupo, seguido por um mirrado garoto de dez anos.

 

WEARDUS

Castor, o que foi que eu

te disse sobre correr...

 

Ele percebe Xena e Gabrielle.

 

WEARDUS

(continua)

Oh. Olá.

 

O garoto pré-adolescente faz uma parada mortal quando avista Xena e Gabrielle. Ele se ergue sobre sua inteira e insignificante altura enquanto um largo sorriso se dobra em seu rosto.

 

WALLIUS

(com uma voz áspera)

Puxa vida, Castor, você com

certeza sabe escolhê-las!

 

Weardus se vira para seu filho.

 

WEARDUS

Wallius, Eu já te adverti sobre

não cobiçar as mulheres.

 

WALLIUS

Caramba, Pai! Eu não estava cobiçando-as!

Eu estava apenas sendo amigável!

 

GABRIELLE

(hesitantemente)

Hum, com licença?

 

WEARDUS

Não me importa, eu não terei esse tipo

de comportamento em minha casa.

Agora vá para o seu quarto.

 

WALLIUS

Putz, Pai! Nós estamos no

meio da floresta! Eu não

tenho um quarto!

 

GABRIELLE

(mais alto)

Com licença!

 

 

WEARDUS

Wallius...

 

JUNOS

Weardus, você não acha que está sendo

um pouco duro com o garoto?

Afinal, não é todo dia que

nós temos tantas...

 

Ela olha cuidadosamente para Xena e Gabrielle.

 

JUNOS

(continua)

…convidadas imponentes nos visitando.

 

WEARDUS

Junos, eu sou o responsável pela

disciplina nesta família. E se...

 

Um assobio penetrante interrompe a briguinha de família. O grupo congela, olhando de olhos arregalados para Xena.

 

Pigarreando, Gabrielle coloca seu mais brilhante sorriso e dá um passo à frente.

 

GABRIELLE

Obrigada.

(pausa)

Então, nós estávamos simplesmente tentando

nos certificar de que o filho de vocês...

 

Ela olha para o garoto em questão.

 

GABRIELLE

(continua)

Castor, não é?

 

Castor assente freneticamente, ainda sendo segurado firme por Xena.

 

GABRIELLE

(continua)

Castor sabia que não deve atirar sem

saber no que ele está atirando.

 

Com o rosto vermelho, Weardus se aproxima a passos largos de Gabrielle e começa a sacudir o dedo diante do rosto dela.

 

WEARDUS

Olhe aqui, jovem... dama.

Fique sabendo que o meu

filho sabe exatamente... ai!

 

Xena tomou o dedo dele em um firme apertão, ainda segurando Castor.

 

XENA

Isso não foi muito agradável.

 

WEARDUS

Solte-me, sua... sua...

sua... patife!

 

Xena e Gabrielle olham uma para a outra.

 

GABRIELLE

(movimentando os lábios)

Patife?

 

Soltando pai e filho, Xena puxa a flecha do seu corpete e a mostra para ambos deles.

 

XENA

Isto...

 

Ela aponta para a flecha.

 

XENA

(continua)

... não é um brinquedo.

 

Ela enfia com força a flecha em uma árvore próxima, enterrando seu cabo fundo no tronco. O rabo de penas vibra soando furiosamente com a força de seu lance.

 

XENA

(continua)

Entenderam?

 

 

Todos, incluindo Gabrielle, assentem.

 

XENA

(continua)

Que bom.

 

Weardus olha como se fosse falar algo, mas é parado por um gentil dedo contra seus lábios.

 

GABRIELLE

Eu não faria isso.

 

Seus olhos se alargam.

 

Ela balança a cabeça.

 

Ele assente, relutantemente.

 

XENA

Gabrielle.

 

Gabrielle sorri.

 

GABRIELLE

Nós vamos… apenas… ter que ir embora

agora. Foi bom conhecer vocês todos.

 

 

Enquanto elas partem, a família se reúne em um apertado nó. As cabeças dos garotos são pressionadas entre o tórax de seus pais, desviando os olhos, como se Xena e Gabrielle fossem transformá-los em pedra com apenas um olhar.

 

Uma vez seguramente fora de vista, uma voz áspera flutua entre as árvores.

 

WEARDUS

Talvez vocês dois devessem passar

algum tempo no templo de Afrodite!

Talvez lá vocês possam aprender

algumas boas maneiras.

 

GABRIELLE

(para Xena)

Boas maneiras? Com Afrodite?

 

XENA

Cara, ele pegou a

deusa  errada.

 

Dando risada, Gabrielle casualmente passa um braço entre o braço de Xena.

 

GABRIELLE

Ou talvez ele tenha tido

uma boa idéia, porém.

 

Xena olha para ela, de olhos arregalados.

 

XENA

Você está dizendo que eu

não tenho boas maneiras?

 

Gabrielle sorri maliciosamente.

 

GABRIELLE

Bem...

 

Os olhos de Xena se estreitam. Gabrielle se empurra levemente contra ela.

 

GABRIELLE

(continua)

Eu estava falando sobre visitar Afrodite, sua boba.

Já faz algum tempo desde que a vimos pela

última vez, e com tudo o que passamos

com Ares, eu gostaria de ver como ela

está indo. Quer dizer, ela parecia

com a própria Afrodite, mas...

eu apenas precisava saber.

 

Xena finge pensar sobre isso.

 

XENA

Eu suponho que poderíamos

enfiar uma visita em algum lugar

da nossa já tão agitada agenda.

 

 

GABRIELLE

(sorrindo maliciosamente)

Você é uma verdadeira princesa

entre os guerreiros.

 

Xena lhe faz uma zombeteira reverência.

 

XENA

(alegremente)

Obrigada. Eu me esforço.

 

CORTA PARA:

 

CENA EXT. TEMPLO DE AFRODITE - DIA

 

Do lado de fora, o templo parece normal. De um tamanho médio, ele é feito com mármore branco e é distintamente feminino, como condiz à deusa a quem é honrado.

 

A alguns passos da entrada, Gabrielle pára mortalmente. Seu rosto se comprime em uma expressão de extremo desgosto.

 

GABRIELLE

Que cheiro é esse?!?

 

XENA

Não olhe para mim.

 

GABRIELLE

Estou falando sério, Xena. Isso

fede como peixe apodrecendo!

(pausa)

E não me venha com aquele tipo de

comentário de turma do fundão.

 

XENA

Nem uma palavra.

 

CORTA PARA:

 

CENA INT. TEMPLO DE AFRODITE - DIA

 

Resistindo ao impulso de apertar seus narizes, ambas mulheres entram no templo. O interior parece como se tivesse sido atingido por um ciclone. Estátuas e móveis quebrados se espalham jogados pelo chão. Presentes deixados à Afrodite estão apodrecendo no altar, produzindo um fedor que se estende sobre tudo como se fosse um manto de fumaça. 

 

GABRIELLE

(suavemente)

O que aconteceu?

 

XENA

Só há um jeito de

descobrir. Afrodite!

 

Um longo momento de silêncio.

 

XENA

(continua)

Afrodite!!

 

Um momento depois, Afrodite surge com uma rajada de fagulhas cor-de-rosa.

 

AFRODITE

(amorosa)

Ora, se não é meu favorito

grupo de garotas! O que

é que há, meninas?

 

 

Ela parece estar se movendo a uma batida que só ela pode escutar. Seu corpo balança em movimento constante, e seus dedos, pousados em seus quadris, constantemente tamborilam.

 

GABRIELLE

(incerta)

Tudo bem com você?

 

AFRODITE

(rindo)

Moi? Uma perfeição absoluta, como

sempre. Por que não estaria?

 

Gabrielle troca um rápido olhar com Xena

 

GABRIELLE

Por nada não... eu acho.

(pausa)

O que é que houve com este templo?

 

 

Afrodite olha em volta. Encolhe os ombros.

 

AFRODITE

Eu sou uma Deusa ocupada, Gabi.

Lugares para ver, pessoas a

atender. Você sabe como é isso.

 

GABRIELLE

Afrodite, eu sempre lhe vi quase se

descontrolando se houvesse sequer um

cisco de pó em um de seus altares.

 

AFRODITE

As coisas mudam, sabia?

É como eu disse...

 

GABRIELLE

Você é uma Deusa ocupada.

 

AFRODITE

Exatamente! Falando nisso, como

vocês podem me chamar de uma

festa totalmente agitada, meninas?

Vocês garotas precisam da ajuda

da deusa do amoooor, hum? Sem

problemas no paraíso, eu espero.

 

Xena gira os olhos. Gabrielle cora levemente. Afrodite sorri maliciosamente.

 

AFRODITE

(continua)

Não achei que tivessem mesmo.

Então… que que 'tá pegando?

 

GABRIELLE

(descontraída)

Oh, não muito. Nós só estávamos,

você sabe, passando por aqui,

e decidimos parar pra ver

como você estava.

 

AFRODITE

Awww. Isso é tão doce!

(pausa)

Mas vocês garotas não precisam vir

checar se eu estou bem. Como podem ver, eu

estou excelente e nos esquemas, como sempre.

Então... tchauzinho agora. Espero que vocês

se divirtam em suas pequenas aventuras!

 

GABRIELLE

Afrodite, espere!

 

AFRODITE

Siiiiim?

 

GABRIELLE

(impulsivamente)

Por que você não vem conosco?

 

Xena olha para Gabrielle como se tivesse lhe crescido uma terceira cabeça. Até os olhos de Afrodite ficam arregalados com o choque.

 

 

AFRODITE

Como é que é?

 

GABRIELLE

Venha conosco!  Xena disse que há um

problema com um senhor da guerra

na próxima cidade perto daqui. Nós

estamos indo lá para verificar isso.

 

Afrodite olha para Xena.

 

AFRODITE

Você andou dando a ela aquele bolo de

nozes batizado de novo, não andou?

 

GABRIELLE

Estou falando sério!

 

AFRODITE

O-lá pequena barda, sou eu… a

Deusa do Amor!? Por que eu iria

querer botar meu deslumbrante

pé em uma zona de guerra?

 

GABRIELLE

Eu não chamaria exatamente de uma zona de guerra.

Além disso, você ainda é uma deusa, certo?

Se houver algum problema...

 

Gabrielle estala os dedos.

 

GABRIELLE

(continua)

Você simplesmente... puf!

 

AFRODITE

Puf?

 

GABRIELLE

Puf. Vamos.

Será interessante.

 

AFRODITE

A sua idéia de interessante e a

minha idéia de interessante são coisas

totalmente distantes uma da outra, Gabi.

 

GABRIELLE

É, mas ao menos será algo diferente

de todas essas festas que você

diz que está tendo.

 

AFRODITE

E isso é uma coisa

boa, porque...?

 

GABRIELLE

Por favor?

 

Gabrielle olha para Afrodite.

 

Afrodite olha de volta para Gabrielle.

 

Xena olha como se quisesse matar alguma coisa.

 

Gabrielle continua a olhar para Afrodite.

 

Afrodite continua a olhar de volta para Gabrielle.

 

Finalmente, Afrodite suspira.

 

AFRODITE

Certo. Eu vou em frente nessa pequena

aventura com vocês, está bem assim?

 

GABRIELLE

(radiando)

Ótimo!

 

AFRODITE

Ok, então, vamos seguir com o show

pela estrada, meninas. Eu vou ter uma

sessão de massagem em algumas horas.

Mãos realmente talentosas, se é que

vocês sabem o que quero dizer.

 

GABRIELLE

Afrodite, você não pode

vir conosco assim!

 

 

AFRODITE

Por que 'assim'? Esta é a

transparente perfeição!

 

XENA

Perfeito para começar

um tumulto, talvez.

 

AFRODITE

Bem, eu sou a deusa do

amor, Xena. Tumultos de

amor são meu negócio.

 

GABRIELLE

Talvez você pudesse tentar

algo um pouco mais...

sereno?

 

AFRODITE

Sereno?

 

Gabrielle assente.

 

Afrodite franze a testa.

 

AFRODITE

Certo.

 

Com um estalar de dedos, ela some e retorna um segundo depois, apresentando um muito mais sereno, embora ainda chamativo, conjunto de vestuário.

 

 

AFRODITE

(continua)

Melhor?

 

Xena suspira.

 

XENA

Vai servir.

 

 

AFRODITE

Excelente! Então, onde é essa cidade

para onde nós vamos? Apenas me

indique a direção e eu nos farei

aparecer lá em um lampejo!

 

XENA

Oh não. Sem aparecimentos.

(pausa, para Gabrielle)

E sem 'puf's.

(pausa, para Afrodite)

Andando. É como chegaremos lá.

A velha e boa caminhada.

 

AFRODITE

Andando?!? Ninguém me disse

sobre andar quando eu assinei

esse serviço de vocês. Deusas

não caminham, Xena.

 

XENA

Se elas quiserem ir a algum lugar

conosco, elas caminham sim.

 

Afrodite alça um dramático suspiro.

 

AFRODITE

Oh, certo. Lidere o caminho,

criança guerreira. Eu posso

me esforçar nisso.

(pausa)

Por enquanto.

 

FADE OUT.

 

FIM DO PRIMEIRO ATO

 

SEGUNDO ATO