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FADE
IN: CENA INT. APOSENTOS DE GABRIELLE. NOITE. Gabrielle dorme espasmodicamente, se agitando e se virando várias
vezes. Ela puxa o fino cobertor para cima de um dos ombros e se acalma uma
vez mais, de frente para as sombras que surgem sobre ela. Enquanto Gabrielle cai em um sono mais profundo, Xena caminha
silenciosamente, se afastando da parede. A sombra projetada pelo seu corpo
se torna maior enquanto ela se aproxima da cama de Gabrielle e se ajoelha,
sem desviar seu olhar do rosto de Gabrielle. Uma inquieta mão firme se estende, como se tocasse o cabelo
despenteado brilhando sob a luz da tocha. XENA (sussurrando) Eu
também te amo, Gabrielle Os olhos de Gabrielle rapidamente se abrem, e Xena recua quando o
braço de Gabrielle vem para fora do cobertor, apanhando um dos seus sais,
virados de forma letal. Mesmo ela tendo recuado, Gabrielle consegue abrir
um pequeno arranhão no braço de Xena na primeira fração de segundo
entre o sono profundo e a perfeita vigília. Xena se esquiva para dentro das sombras enquanto Gabrielle pula
para fora da cama, com as armas em punho. Ela imediatamente toma uma posição
defensiva, segurando o sai para cima e colocando uma das mãos na frente
de si. Ela olha cuidadosamente para o canto escuro e vagarosamente abaixa
sua mão e sua mente percebe o que ela acabou de fazer, e a quem. GABRIELLE Xena?
Um estranho zumbido ressoa em seus ouvidos, e ela percebe que é
o sangue se movimentando na sua cabeça. Ela oscila por um momento, então
se estabiliza novamente, ainda olhando fixamente para as sombras. Ela
pisca rapidamente, como se quisesse se convencer de que o que ela vê está
ali, e não é simplesmente uma invenção da sua imaginação. Ou um
sonho. GABRIELLE (continua) Xena? Xena começa a caminhar das sombras, mas algo a segura. Seus
olhos estão preocupados, mas atentos. GABRIELLE Por
favor, Xena. Por
favor... deuses... diga algo. Qualquer
coisa. XENA (sussurrando) Gabrielle.
Gabrielle vacila levemente ao som de seu nome pronunciado pela
sua alma gêmea. Então ela se endireita, ainda fixa em seu lugar, por
incerteza. GABRIELLE Eu
estou sonhando? XENA (doce) Não.
Você não está sonhando. Gabrielle ofega e cobre sua boca com a mão enquanto lágrimas
saltam de seus olhos. GABRIELLE Mas
como? Por quê? Xena dá um pequeno passo até a luz. Seu rosto está sombrio,
mas seus olhos brilham de amor. XENA Porque
você pediu. (pausa) E
porque eu te amo. Vendo Gabrielle ainda paralisada, ela dá outro passo e segura
sua mão. XENA (doce) Está
tudo bem. GABRIELLE Eu…
não posso... Ela
pára abruptamente de falar quando seus olhos focalizam uma pequena gota
nos panos da camisa que Xena está vestindo. Seus lábios se movem, mas
sem som, a não ser por um rápido influxo de respiração que emerge. XENA (preocupada) Gabrielle? Ainda em silêncio, Gabrielle estreita a distância entre elas, e
alcança a gota na roupa de Xena. Ela tira seus dedos vagarosamente e os
leva para cima, para a luz, esfregando-os com o polegar. Como que em um
transe, ela os leva devagar até a boca e os experimenta. Ela olha então para cima, seus olhos brilhando com uma mistura
de emoções impossíveis de nomear. GABRIELLE Xena? XENA (sussurrando) Sim? GABRIELLE Fantasmas
não sangram... (pausa) Sangram? Os olhos de Xena se fecham por um momento e, quando se abrem
novamente, eles estão repletos de lágrimas não vertidas. XENA Não.
Não sangram. Xena nem tem tempo de se apoiar completamente antes de seus braços estarem preenchidos pela Gabrielle. Ela dá um passo para trás e apóia as duas contra o sólido suporte da parede e envolve sua alma gêmea em um abraço repleto de ternura e devoção. Pousando sua bochecha no cabelo de Gabrielle, ela fecha fortemente seus olhos como se sentisse através dela os soluços estremecidos do choro de Gabrielle.
Gabrielle se aperta mais fortemente contra o corpo de Xena, o máximo
que ela pode, sem se importar com as roupas incomuns nem com o cheiro que
elas ainda carregam. Sua orelha é pressionada contra o peito de Xena e,
por sobre seus próprios soluços, ela pode ouvir um som que ela achou que
nunca ouviria novamente:
A batida do coração de Xena, forte e firme em seu ouvido, provando,
sobretudo, que a mulher que ela abraça tão ferozmente está realmente
viva. Depois de um momento longo e emotivo, Gabrielle se afasta
levemente e inclina a cabeça para cima, cegamente procurando, enquanto
sua mão sobe por dentro dos cabelos de Xena. Seus lábios se encontram tão
ferozmente quanto o abraço de seus corpos, reafirmando a conexão que
existia além da morte e da vida.
Com as respirações levemente desencontradas, elas se afastam.
Gabrielle dá meio passo para trás, enquanto Xena permanece contra a
parede, observando. Levantando suas mãos, Gabrielle usa apenas a ponta de seus dedos
para tocar o rosto de Xena, como se para memorizar suas sobrancelhas, suas
bochechas, o formato de seus lábios. Seus dedos se arrastam pelo pescoço
de Xena, descendo até o centro de seu peito, e vão parar em sua cintura.
GABRIELLE (sussurrando) Eu
não acredito que você está aqui. Viva. XENA (meio
rouca) Gabrielle,
há coisas que eu preciso
te contar. Eu... GABRIELLE Não,
Xena. Não. Não agora. XENA Nós
temos que conversar. A situação... Gabrielle cobre os lábios de Xena com seus dedos,
silenciando-os. GABRIELLE ...terá
que esperar. A expressão de Xena se suaviza, em sinal de compreensão.
Gabrielle passa os dedos pelos lábios de Xena, depois vira o nó dos
dedos para poder sentir a respiração de Xena contra eles. Um sofrido
sorriso trêmulo aparece no rosto de Gabrielle. GABRIELLE (continua) Minha
alma acaba de sair das sombras. A
vida precisa retornar e me deixar saboreá-la. Xena coloca seus braços em volta de Gabrielle. Ela pode sentir
Gabrielle tremendo. Gabrielle deita sua cabeça e pressiona seu ouvido
contra o peito de Xena para ouvir as batidas de seu coração. Xena fecha
os olhos e acaricia o cabelo de Gabrielle. XENA Neste
caso, nós bem que podíamos ficar mais confortáveis. Gabrielle concorda, então levanta sua cabeça e elas caminham até
o leito, jogando-se nele juntas enquanto Xena puxa as cobertas em torno
delas. FADE
TO: CENA INT. APOSENTOS DE GABRIELLE. MANHÃ. Gabrielle está deitada na cama, sua cabeça apoiada em uma das mãos,
observando com prazer enquanto Xena veste sua habitual roupa de couro e
sua armadura. Xena olha para sua parceira enquanto ela desliza a alça pelo seu
ombro. Ela lhe dá um sorriso inquisidor. XENA Que
foi? GABRIELLE É
bom saber que os sonhos podem se realizar.
XENA (sorrindo) De
vez em quando eles se realizam. (pausa) Eu
fico feliz de você ter guardado minhas roupas. GABRIELLE Eu
queria mais do que um vaso de cinzas. Eu
precisava de algo mais do que isso. Xena podia ver que Gabrielle estava para chorar. Ela se juntou a
ela, sentando-se na cama e esfregando o braço dela de uma maneira
confortante. XENA Eu
entendo. E
eu sei que nós temos muito ainda o que tratar. GABRIELLE Ó
sim, Xena, isso vai requerer uma
LONGA conversa. XENA Várias
delas, tenho certeza. GABRIELLE Algumas. Mas
agora... XENA (sorrindo) Agora
nós temos um trabalho a fazer? GABRIELLE Sim. Isso
me lembra de uma coisa! Xena sorri quando Gabrielle pula da cama e se dirige a seus
pertences. Da bolsa ela puxa o vaso e o coloca na mesa. Xena se arrepia um
pouco, mas continua observando Gabrielle. Ela remove algo e o segura perto
de seu peito, respirando fundo e se virando para entregar o CHAKRAM para
Xena. GABRIELLE Eu
acho que isso pertence a você. Xena olha para a arma, na mão de Gabrielle, hesitando por um
momento apenas antes de se dirigir até lá. Ela olha para Gabrielle, que
sorri e oferece a arma mais uma vez. Xena enxuga suas mãos nervosamente
na sua roupa de couro, então vagarosamente agarra o chakram, suspirando
alto quando vê que sua mão não passa através dele. Gabrielle ri, lágrimas vêm a seus olhos quando Xena toma o
chakram e coloca-o na sua cintura, onde ele adequadamente pertence.
XENA Eu
tenho que dizer que isso me faz sentir bem. GABRIELLE E
fica bem também. Gabrielle se arremessa para frente e coloca seus braços em volta
do pescoço de Xena. Xena devolve o abraço. GABRIELLE Obrigada. XENA Pelo
quê? GABRIELLE Por
voltar pra casa.
Ambas levantam os olhos quando ouvem o som de passos correndo na
direção delas. Zenobia e dois de seus GUARDAS entram apressadamente. ZENOBIA Gabrielle!
Amun sumiu! Eu temo que ele tenha sido... Suas palavras cessam abruptamente quando ela vê sua suprema
comandante militar nos braços de uma guerreira alta e severamente armada. ZENOBIA Gabrielle?
O que está acontecendo aqui?! GABRIELLE (encabulada) Eu
posso explicar. ZENOBIA (interrompendo
Gabrielle) Guardas! GABRIELLE ESPEREM! Os guardas param ao comando de Gabrielle. Eles olham para a
Rainha, confusos. GABRIELLE (continua) Zenobia,
por favor. Não há perigo. Esta
é... meio difícil de explicar, na verdade. Zenobia estreita os olhos. GABRIELLE (continua) Zenobia,
esta é Xena. Xena,
conheça a Rainha Zenobia.
O queixo de Zenobia cai e ela encara as duas com uma evidente
descrença. ZENOBIA Você
disse que ela estava morta! XENA (secamente) Eu
melhorei. ZENOBIA Isto
é... impossível. GABRIELLE Eu
admito que parece ser mesmo, sim. Eu
mesma ainda estou tentando me acostumar, mas acredite
em mim quando eu digo, Zenobia, que esta
não é a primeira vez que nós estivemos envolvidas
nesse impedimento particular. ZENOBIA Explique-se. GABRIELLE (estremecendo) Como
eu disse, é meio difícil de explicar, mas morrer,
e voltar, não é algo com o qual nós estejamos
totalmente desacostumadas. ZENOBIA (sem
acreditar) Você
está seriamente tentando me dizer que isso
já aconteceu com vocês antes? GABRIELLE Mais
de uma vez. Zenobia
olha como se quisesse discutir mais sobre isso, mas a absoluta sinceridade
nos olhos de Gabrielle a convence da verdade mais do que quaisquer
palavras poderiam fazer. Ela balança a cabeça achando tudo isso muito
absurdo, mas não pode fazer nada além de acreditar. ZENOBIA Ótimo.
Digamos que você esteja dizendo a verdade, como
exatamente você chegou até aqui, Xena? XENA Eu
vim pra cá porque Gabrielle estava aqui. Quanto
a ‘como eu recuperei minha vida’, eu usei meus
poderes de persuasão em meu benefício. Eu
fui até Lúcifer e o convenci a me ressuscitar ZENOBIA (para
Gabrielle) Este
não é o mesmo Lúcifer do qual você me falou? Aquele
que está por trás do ataque a esta cidade? GABRIELLE (doce,
suas suspeitas confirmadas) Sim. ZENOBIA GUARDAS! GABRIELLE Espere!
Por favor, deixe-a terminar. Os olhos de Zenobia assentiram, com relutância. XENA Ele
não se importou muito com o jeito que
seu povo derrotou as tropas dele. Ele
me mandou aqui em cima para dar uma mão.
ZENOBIA Então
você está usando seus ‘poderes de persuasão’
para virar Gabrielle contra nós? GABRIELLE Zenobia!
Isso não é justo. ZENOBIA Não
é? Eu entro aqui e encontro você nos braços da
mulher que você veio pranteando desde antes de
você colocar os pés dentro da minha cidade. Uma
mulher que abertamente admite que foi ressuscitada
por ordem do inimigo contra o qual nós
estamos atualmente lutando. O que você queria
que eu pensasse, Gabrielle? GABRIELLE Que
eu estou te dizendo a verdade. Zenobia,
eu nunca menti pra você. ZENOBIA (doce) O
amor às vezes nos faz fazer coisas que
de outro modo não faríamos, Gabrielle. XENA Eu
menti para você por um instante, mas
ela nunca mentiria. ZENOBIA (considerando) Talvez
não, mas... A Rainha sinaliza para os guardas, que se posicionam aos lados de
Xena e Gabrielle. GABRIELLE (olhando
para os guardas) Vocês
estão brincando, não é? Vocês não percebem que se
Xena realmente estivesse aqui para nos sabotar ela
já não teria feito isso? Ela veio andando até aqui. (olhando
para Xena) Ativou
minha armadilha de flechas. Xena
olha para o teto, tentando parecer inocente. GABRIELLE Capturou
Amun... (dando-se
conta do que acabou de dizer) Xena? XENA Sim? GABRIELLE Onde
está Amun? XENA (timidamente) Eu
tive que escondê-lo. Ele
está bem. Apenas dormindo. Zenobia esfrega a testa, depois olha de novo para elas. ZENOBIA Eu
devia colocar as duas na cadeia. (suspirando) Mas,
eu temo que, se Xena está aqui em obediência ao
demônio Lúcifer, as tropas dele poderiam simplesmente
nos aniquilar. E eu sou sábia o suficiente para
saber que, se ela não está, então nós temos uma chance
muito melhor de derrotá-lo com a ajuda dela. XENA Por
isso que eu estou aqui. Eu
quero ajudar vocês. ZENOBIA Então
eu acho que não tenho muita escolha. De
qualquer forma, eu certamente não estou muito
confortável com esta mudança de eventos. Se
eu chegar a ver uma coisa, uma coisinha sequer, que
me faça acreditar que você não está sendo sincera,
eu não hesitarei em fazer o que quer que
seja necessário para parar você. XENA Compreensível.
Eu não poderia esperar menos que isso. Zenobia olha para Gabrielle, com a frustração diante da situação
claramente escrita em seu rosto. ZENOBIA Eu
estou confiando em você, Gabrielle. Não
faça eu me arrepender disso. GABRIELLE Nós
não faremos. Eu prometo. Zenobia assente e se vira para deixar o quarto, levando seus
guardas com ela. Assim que ela sai, Gabrielle circunda Xena, com as mãos
nos quadris dela. GABRIELLE Agora,
você quer me dizer a real verdade sobre
seu pequeno pacto com Lúcifer? XENA Aquela
foi praticamente toda a verdade. Eu
só deixei de fora um pequeno detalhe. GABRIELLE Sim? XENA Eu
deveria matar você, voltar para o Inferno, tornar-me
a segunda no comando e aprisionar sua
alma antes de você conseguir ir pro céu, pois assim
eu poderia ter você do meu lado para sempre. GABRIELLE Ó,
isso é tudo? XENA Praticamente,
sim. GABRIELLE Bem,
mas você não pode capturar o
que já é seu, pode? XENA (chocada) Ainda? GABRIELLE Sempre. Gabrielle sorri amplamente ao ver que deixou sua parceira sem
palavras. GABRIELLE (continua) Vamos
lá. Vamos mostrar a eles como a Princesa
Guerreira e a Guerreira Poetisa ganham
guerras e influenciam as pessoas.
Alegremente dando as costas para Xena, ela deixa o quarto,
enquanto Xena olha fixamente para ela, sorrindo atravessado e balançando
a cabeça. CORTA
PARA: CENA INT. APOSENTOS DE LUCIFER. Lúcifer se senta no seu recém restaurado trono, observando pelo
seu portal privativo. A imagem oscila constantemente entre a claridade do
cristal e a confusão estática. Rosnando, ele dá uma bela de uma pancada
no lado do portal, e a imagem se estabiliza por um breve momento, antes de
ficar borrada e distorcida de novo. LUCIFER Eu
não estou me divertindo. Parados na porta, dois GUARDAS tremem de medo. Eles passaram a
maior parte de sua pequena eternidade juntando as peças dos últimos dois
demônios que guardavam a sala, e eles não estão tão ansiosos para
serem os próximos. LUCIFER (continua) Beezel! O guarda da esquerda engole seco. BEEZEL Sim,
Majestade?
LUCIFER Venha
até aqui. BEEZEL Sim,
Majestade. Um canto fúnebre toca enquanto Beezel vagarosamente caminha pelo
chão, com a cabeça baixa. LUCIFER Fique
perto do portal. BEEZEL Sim,
Majestade. LUCIFER Agora
levante os dois braços, assim. BEEZEL Assim,
Majestade? LUCIFER Não,
seu tolo! Você é tão cego quanto é burro? Assim! (demonstrando) Ah,
perfeito. Agora coloque para a direita assim. BEEZEL Colocar
o quê, Majestade? LUCIFER (rosnando) Não
- mova - um - dedo. BEEZEL Sim,
Majestade. A recepção do portal imediatamente se clarificou, e Lúcifer se
inclinou para frente, com uma precaução evidente na sua postura.
Enquanto a imagem aumentava de zoom, seus olhos se estreitavam, e seu
rosto começou a tomar a cor das chamas infernais que o circundavam.
LUCIFER MALDITA!!! BEEZEL Maldita
quem, Majestade? LUCIFER Ó
Xena, Xena, Xena. Você realmente acha
que pintar esses tórridos símbolos religiosos
nas portas do túnel serão suficiente
para me manter longe de você? (pausa) Se
você sequer pensar em me tapear, os
sete níveis de meu domínio parecerão um
paraíso comparado com o que eu terei prazer de
fazer com você por toda a eternidade. (pausa) Beezel! BEEZEL Sim,
Majestade? LUCIFER Chame
meus soldados. Eu posso ter um
trabalhinho para eles em breve. BEEZEL (agradecido) Sim,
Majestade. FADE OUT.
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